Foto: Vanessa Araújo/NE10

Heleno coleciona LPs e vitrolas
É difícil imaginar que, em uma comunidade desprovida de infraestrutura básica, seja possível encontrar uma espécie de museu da música. Na Rua Tancredo Neves, no bairro de Dois Unidos, Zona Norte do Recife, Heleno “da Música Antiga” guarda com zelo relíquias de discos de vinil de artistas nacionais que fizeram sucesso anterior à década de 80. Dos seus 77 anos, mais da metade foi dedicada a adquirir as obras e vitrolas dos mais diversos modelos.
Ao chegar ao portão da casa do colecionador, um manequim bem vestido, estrategicamente colocado de frente para a entrada, avisa a chegada do visitante: “Heleno, o portão tem gente, vá atender”. Encomendada no município de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do Estado, a boneca ajuda os moradores da residência, que têm problemas auditivos, a saber quando há alguém na porta. A morada simples, que divide com a companheira Rosita, mostra em todos os cômodos a paixão do colecionador. Fotos com cantores e matérias de jornais dos ídolos estão expostas nas paredes da sala. Os discos, guardados nos armários espalhados pela casa.
Registrado como Heleno Ferreira dos Santos, passou a adotar a alcunha “da Música Antiga” depois do primeiro nome após a contribuição que deu para o livro Jackson do Pandeiro – o rei do ritmo, de autoria de Fernando Moura e Antônio Vicente. A obra relata a vida e obra de Jackson, com quem teve contato desde o início da carreira do artista.
Nascido em Bezerros, tem mais recordações da infância vivida na cidade vizinha, em Riacho das Almas, ambas no Agreste pernambucano. Ainda jovem, mudou-se para o Recife, sozinho, em busca de emprego. Trabalhou como motorista e mecânico, tendo ingressado no Exército e, posteriormente, na Polícia Militar. Da PM foi desligado, segundo conta, devido a um desentendimento com o dono de um bar. O homem não quis atendê-lo; ele insistiu. Não chegou a brigar. “Disse só que eu era homem, só não era na casa dele”. O comerciante entendeu a frase como uma ameaça e acionou a polícia.
SONHO – A vida de Heleno foi marcada por privações e muita força de vontade. Quando jovem, só teve oportunidade de se alfabetizar. Teve que assumir cedo as responsabilidades de adulto para sobreviver. Tentou aprender a tocar sanfona e pandeiro, mas acabou vendendo os instrumentos por achar que não possuía talento.
“Se tivesse oportunidade de estudar, queria mesmo era aprender música”. Mas o conhecimento sobre a música veio por outro caminho. Assim que conseguia dinheiro, ia ao Centro do Recife comprar discos e biografias de artistas.
É na música que o colecionador encontra um refúgio para os problemas e a recordação do passado. “Se tenho um sonho ruim ou fico doente, coloco uma música e esqueço tudo o que passou e me alegro”, conta. Só para a coleção de mais de 40 discos que ele possui do cantor Jackson do Pandeiro já foram oferecidos R$ 4,5 mil. A proposta foi recusada sob alegação de que o valor sentimental não tem preço. Atualmente, segue à procura de um disco do cantor Jorge Veiga em que canta a música O Padroeiro do Brasil. “Estou a disposto a pagar R$ 100 se encontrar”, conta.
Amigo da família de Jackson do Pandeiro, Heleno manteve contato com a esposa do artista, a também cantora Almira Castilho, por muitos anos. Com ela, planejava colocar em algum museu parte das relíquias que guarda. Os planos foram parcialmente interrompidos com a morte da artista, no último mês de fevereiro, no Recife. Mas a ideia continua na cabeça de Heleno, “mesmo sabendo que esteja mais perto da morte”.
