Heleno, um colecionador de música antiga

27 abr

Foto: Vanessa Araújo/NE10

Heleno coleciona LPs e vitrolas

É difícil imaginar que, em uma comunidade desprovida de infraestrutura básica, seja possível encontrar uma espécie de museu da música. Na Rua Tancredo Neves, no bairro de Dois Unidos, Zona Norte do Recife, Heleno “da Música Antiga” guarda com zelo relíquias de discos de vinil de artistas nacionais que fizeram sucesso anterior à década de 80. Dos seus 77 anos, mais da metade foi dedicada a adquirir as obras e vitrolas dos mais diversos modelos.

Ao chegar ao portão da casa do colecionador, um manequim bem vestido, estrategicamente colocado de frente para a entrada, avisa a chegada do visitante: “Heleno, o portão tem gente, vá atender”. Encomendada no município de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do Estado, a boneca ajuda os moradores da residência, que têm problemas auditivos, a saber quando há alguém na porta. A morada simples, que divide com a companheira Rosita, mostra em todos os cômodos a paixão do colecionador. Fotos com cantores e matérias de jornais dos ídolos estão expostas nas paredes da sala. Os discos, guardados nos armários espalhados pela casa.

Registrado como Heleno Ferreira dos Santos, passou a adotar a alcunha “da Música Antiga” depois do primeiro nome após a contribuição que deu para o livro Jackson do Pandeiro – o rei do ritmo, de autoria de Fernando Moura e Antônio Vicente. A obra relata a vida e obra de Jackson, com quem teve contato desde o início da carreira do artista.

Nascido em Bezerros, tem mais recordações da infância vivida na cidade vizinha, em Riacho das Almas, ambas no Agreste pernambucano. Ainda jovem, mudou-se para o Recife, sozinho, em busca de emprego. Trabalhou como motorista e mecânico, tendo ingressado no Exército e, posteriormente, na Polícia Militar. Da PM foi desligado, segundo conta, devido a um desentendimento com o dono de um bar. O homem não quis atendê-lo; ele insistiu. Não chegou a brigar. “Disse só que eu era homem, só não era na casa dele”. O comerciante entendeu a frase como uma ameaça e acionou a polícia.

SONHO – A vida de Heleno foi marcada por privações e muita força de vontade. Quando jovem, só teve oportunidade de se alfabetizar. Teve que assumir cedo as responsabilidades de adulto para sobreviver. Tentou aprender a tocar sanfona e pandeiro, mas acabou vendendo os instrumentos por achar que não possuía talento.

“Se tivesse oportunidade de estudar, queria mesmo era aprender música”. Mas o conhecimento sobre a música veio por outro caminho. Assim que conseguia dinheiro, ia ao Centro do Recife comprar discos e biografias de artistas.

É na música que o colecionador encontra um refúgio para os problemas e a recordação do passado. “Se tenho um sonho ruim ou fico doente, coloco uma música e esqueço tudo o que passou e me alegro”, conta. Só para a coleção de mais de 40 discos que ele possui do cantor Jackson do Pandeiro já foram oferecidos R$ 4,5 mil. A proposta foi recusada sob alegação de que o valor sentimental não tem preço. Atualmente, segue à procura de um disco do cantor Jorge Veiga em que canta a música O Padroeiro do Brasil. “Estou a disposto a pagar R$ 100 se encontrar”, conta.

Amigo da família de Jackson do Pandeiro, Heleno manteve contato com a esposa do artista, a também cantora Almira Castilho, por muitos anos. Com ela, planejava colocar em algum museu parte das relíquias que guarda. Os planos foram parcialmente interrompidos com a morte da artista, no último mês de fevereiro, no Recife. Mas a ideia continua na cabeça de Heleno, “mesmo sabendo que esteja mais perto da morte”.

Não se fazem mais crianças como antigamente… [2]

13 fev

Parque Aquático está para crianças assim como lixo está para pinto. Já viu criança gostar tanto de água fria quanto num local como esses?

Pois bem. Eu e Bobelino havíamos acabado de chegar no Veneza. O céu da manhã, no início, deu sinais de “querer chover”, como dizemos em Cachoeirinha. Assim que trocamos de roupa e saímos para aproveitar os brinquedos do parque, eis que começa a chover.

Ora, por que as pessoas correm da chuva dentro de um parque onde o que mais interessa é a água?

Um menino de mais ou menos quatro anos se banhava em um brinquedo que jogava de cima para baixo o líquido de forma semelhante àquelas mangueiras de lava-jato. Começa a chover. Ao ouvir os gritos desesperados da mãe, o garoto corre em direção a ela. Porém, inconformado.

- Pedro Neeeeeeto, sai da chuva!

- Mas mãe, ali também não chove?, questionou espertamente, apontando para o brinquedo.

Não se fazem mais crianças como antigamente…

2 fev

Passar uns dias de férias em Cachoeirinha sempre rendem boas risadas e, consequentemente, boas histórias, que fico com vontade de compartilhar, mas com preguiça de escrever. Fazia tempo que eu não me deliciava com a companhia dos meus irmãos.

Bruno tem agora seis anos e já foi personagem de outros relatos neste Relógio de Sol. Rostinho redondo, sorriso e senso de humor contagiantes. Conhecido pelas suas habilidades com aquilo que é good e nóis num have, o menino me impressionou quando o vi falando dos tipos de jogos do Pôquer. É, meu irmão sabe jogar. Participa de partidas na Internet. E ganha.

Bia já é uma mocinha (linda, diga-se de passagem!). Domingo, a chamei para passear e comer pizza… Mas ela não quis. Fiquei sem entender. Ela estava “amuada” e não explicou o motivo da recusa. Mais tarde, quando voltei, perguntei novamente o porquê de não ter ido conosco. A resposta? Ela mesma disse: “frescurês”. Ai, a adolescência…

Nos dias anteriores, passei várias horas com Manu e Mari, as gêmeas de cinco anos. Levei um livro para cada. Manu guardou como se fosse o melhor presente que já havia recebido. Já Mari, esperneou, gritou: queria o livro da outra. Tão parecidas, mas tão diferentes!

Mari é daquelas crianças espertas que aprende as coisas rápido e tem um desejo imenso de crescer. Não sabe ela o que a espera nesse mundo de adultos… Já Manu aproveita a idade como se tivesse noção de que tudo só se vive uma vez.

Certa noite, antes de dormir, as duas brincavam de casinha. Quando passei pelo quarto para desejar “boa noite”, Mari olha para o espelho e diz: “Eu já queria ser do teu tamanho”. Ao que Manu, de imediato, questiona: “Vanessinha, é bom ser gente grande? Eu acho que não. Gente grande sofre…”

Não tinha teto, não tinha nada

10 set

A falta de moradia tem sido um dos principais problemas do crescimento urbano desordenado. Recife é portadora desse mal. Procurei agora uma palavra para definir o que sinto quando passo, logo cedo da manhã, pela avenida Conde da Boa Vista e vejo pessoas dormindo nas calçadas, no chão, nos bancos das praças. Não encontrei. É uma mistura de tristeza, culpa, responsabilidade e, talvez, pena.

No começo dessa semana, cerca de 150 famílias de um movimento social decidiram ocupar o edifício Trianon, localizado na avenida Guararapes. Todos lutam por uma moradia. O prédio de sete andares foi construído para funcionar como um cinema, mas estava sem uso há cerca de 20 anos. As imagens vistas lá dentro poderiam emocionar um público que se sente incomodado com a miséria, mas ao mesmo tempo é alheio à responsabilidade social.

Pessoas humildes, mas nem todas nas mesmas condições, tentam dar uma identidade ao local que passou a ser um novo lar. Não doce, como grande parte gostaria. Mas, ao menos, digno. O poder de improviso que a necessidade impõe impressiona. Paredes sujas, sem reboco, instalação elétrica ou água. Nada disso parece incomodar tanto os novos “condôminos”.

No Carnaval, este mesmo prédio se transforma em camarote e torna-se um dos espaços mais movimentados e caros. E nesta época, parece que ninguém se lembra dos moradores das palafitas, dos que vivem embaixo das pontes, dos que dormem no chão, na rua. Como essa contradição me inquieta. Como somos cordiais…

O maravilhoso poder da leitura – Sugestões de livros

2 jul

Vanessa Araújo

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Pró-livro este ano, 86% dos entrevistados nunca foram presenteados com livros e 55% também nunca viram os pais lendo. Diante desse quadro e a fim de contribuir para a melhoria da educação no Brasil, o movimento sem fins lucrativos Educar para Crescer, do Grupo Abril, em parceria com outras empresas, listou os 204 livros mais importantes destinados a uma faixa etária que vai dos dois aos 18 anos. As sugestões foram feitas por 18 profissionais de educação, entre professores e coordenadores pedagógicos de escolas do estado de São Paulo.

A relação pretende auxiliar, principalmente, pais e mães no estímulo à leitura para os filhos desde cedo. “Quanto antes a criança for envolvida na leitura, melhor será seu desenvolvimento. Ler não é só importante pelo conteúdo, mas também porque aumenta o senso crítico, o vocabulário, a maneira como a criança se comunica, além de facilitar a escrita”, explicou a editora do Educar para Crescer, Betina Monteiro. A escolha das obras obedeceu ao critério de fazer parte do currículo escolar brasileiro, acrescentado de outras complementares, com livros de literatura clássica internacional.

Para os menores, obras lúdicas, coloridas, que estimulem a imaginação, e poemas para que memorizem mais rapidamente. Clássicos infantis de autores como Ruth Rocha, Monteiro Lobato e Ziraldo são sugeridos. À medida que eles forem crescendo, eles próprios poderão ler as obras indicadas, as quais tratam, em geral, de regras, comportamentos, meio ambiente e diferenças sociais. Para os mais velhos, títulos que são requeridos por várias universidades brasileiras e trabalhos contemporâneos, a exemplo de “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini. A sugestão é de que se leia uma obra por mês, o que não significa que esse número não possa ser ampliado.

O estudante Thyeri Bione, 24, acredita na importância que os livros tem para a formação do indivíduo. Ele, que não possui uma família de leitores, começou a despertar para a leitura aos 16 anos. “Fui influenciado pelos amigos e, hoje, leio mais de dez livros por ano nas línguas portuguesa e inglesa”, contou. Thyeri chega a ser uma exceção em um País onde a média de leitura anual é de um livro, enquanto na Inglaterra chega a cinco, segundo pesquisa realizada pela National Foundation for American children’s reading (Fundação Nacional Americana de Leitura Infantil). Para o estudante, a leitura melhorou sua escrita, vocabulário e a forma como ele avalia as outras obras.

Para a professora de Língua Portuguesa do Colégio de Aplicação (CAp), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Cristina Almeida, mesmo quando a criança não tem o estímulo em casa, a escola deve oferecer estrutura por meio das bibliotecas e da sugestão dos professores. “Acho que o professor tem que saber escolher um livro não só com valores morais. É importante sugerir livros com conteúdo, mas deve ser prioritário o valor estético, como uma boa narrativa”, comentou.

Serviço

A lista com as sugestões está disponível no site: http://educarparacrescer.abril.com.br

Uma tragédia anunciada

19 jun

Estes últimos cinco dias tem sido para muitos pernambucanos sinônimo de caos. E eu diria mais: perda, tragédia, drama. Choveu no Estado em 24 horas o que choveria em um mês. E nós não estávamos preparados para o que veio. Foram nove mortos até agora, das quais oito deles em Recife. Cinco, em uma mesma família. A outra, no município de Cortês. Pessoas desaparecidas, objetos pessoais e memórias arrastadas pelas águas violentas. No Interior, várias pessoas estão ilhadas. Cidades em Alerta Máximo.

Ontem, a palavra para definir meu dia foi intensidade. Na madrugada da sexta-feira, dia 18, cinco pessoas de uma mesma família morreram vítimas de um deslizamento de barreira. Na manhã seguinte, uma criança de um ano também foi soterrada. Ela havia ido dormir na casa da avó, junto com a irmã, pois com as chuvas, sua casa alagara. Fatalidade. O muro da casa na parte de trás desabou e ele foi atingido pelos tijolos. Outra criança passou 15 horas sob os escombros, até ser resgatada sem vida pelo Corpo de Bombeiros. Tudo isto aconteceu no bairro de Dois Unidos, na Zona Norte do Recife.

Chegamos cedo ao local, onde duas equipes de bombeiros havia realizado buscas pelo corpo da criança por horas, mas sem sucesso. O trabalho foi diversas vezes interrompido por conta da chuva. A cada nova pancada d’água, tudo o que tinham cavado, era desfeito com novos deslizamentos da barreira. Cerca de 20 homens, moradores da comunidade, passaram a noite auxiliando a operação, mesmo quando esta era interrompida. Reforço fundamental. Homens de coragem, força e solidariedade. No mesmo local, na noite anterior, o corpo de um homem também tinha sido encontrado. A irmã da criança chorava inconformadamente. A mãe encontrava-se sob efeitos de medicamentos.

O drama pelo resgate acabou por volta do meio-dia. Mas somente quase uma hora depois foi possível tirar a criança sob barro e entulhos. A família estava morando há cerca de quatro meses no local que invadiram para construir um barraco de madeira. Segundo a filha mais velha, o auxílio moradia estava para sair, mas não foi a tempo de evitar uma tragédia…

***DOAÇÕES

Roupas, mantimentos, água, agasalhos, produtos de limpeza e higiene pessoal estão sendo arrecadados para os desabrigados em vários pontos do Estado. Quem quiser realizar doações, pode se dirigir ao Quartel da Polícia Militar, no bairro do Derby,  ou ao Quartel dos Bombeiros, na Avenida João de Barros. Aqueles que estão no interior do Estado, por sua vez,  podem procurar qualquer posto da Polícia Militar ou dos Bombeiros.

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

19 mai

Dezenove de abril de 2010. Este é o dia que o pedreiro Jackson do Nascimento Silva nunca vai esquecer. Voltava do trabalho, no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, por volta das 17h30, e estava já entrando em casa, quando sentiu um cheiro de fio queimado. Intrigado, deu alguns passos em direção ao lado direito e avistou um fogaréu vindo de uma das casas vizinhas e que se aproximava da sua moradia, um barraco de palafitas, constituído de madeira e plástico, na comunidade Jardim Beira-Rio, no bairro do Pina.

Desesperado, Jackson saiu correndo pela vizinhança, gritando “Saiam das casas, o fogo está tomando conta de tudo! Corram, rápido!”. Ao retornar para o local onde foi seu lar por 18 anos, só teve tempo de salvar alguns documentos e, tirando energias de onde não imaginaria ter, passou a ajudar os vizinhos jogando baldes de água nas chamas até que cessassem. Trinta minutos foram suficientes para que o fogo tomasse conta de aproximadamente 100 barracos iguais aos seus.

Com a voz trêmula, mãos suadas e olhar desolado, Jackson aponta, no dia seguinte ao incêndio, para o lugar onde ficava cada cômodo da sua casa e vai enumerando com os dedos tudo o que perdeu. “Roupas, geladeira, fogão, cama, armário, mesa, computador, brinquedos e livros das meninas. Fiquei com nada, não, foi-se embora o que consegui com tantos anos de trabalho”. Mostra a roupa que veste: uma camisa amarela, bermuda cinza e par de sandálias, únicas coisas que lhe sobraram.

Os olhos marejam e as lembranças começam a vir à tona. Afirma nunca ter vivido no lugar onde gostaria, pois as condições sanitárias e higiênicas eram precárias. Mas tinha um teto e era seu. Enxuga as lágrimas que caem sobre o rosto, promete não desanimar.  Recebe elogios e agradecimentos dos vizinhos por ter avisado a quem podia sobre o perigo de continuar dentro das casas. “Se não fosse ele batendo na minha porta, minhas filhas talvez nem estivessem vivas. Ele se preocupava com as pessoas”, conta o garçom Flávio Fabrício de Oliveira, vizinho de Jackson há 15 anos.

Jackson é forte, tem fé e disposição para trabalhar. Graças a isso, sua mulher consegue dar um sorriso, apesar de todo o pesadelo que tem vivido. “Estamos morando nos fundos da casa da minha irmã. Nossas filhas estão na casa do meu cunhado, mas logo, logo, a gente vai conseguir um lugarzinho só nosso, se Deus quiser! Meu marido é trabalhador, vive para a família, ele vai trabalhar para a gente ter de novo nossa casa. Se não fosse ele, eu estaria desesperada a essa hora”.

Passado o pesadelo de não ter mais um lar para dividir com a família, ele tentar erguer-se do zero. “Vim aqui ver se consigo aproveitar algum material, ferro, madeira, qualquer coisa que eu possa juntar e fazer minha casa de novo. Infelizmente, tem que ser aqui mesmo. Queria muito que as autoridades olhassem para a gente e dessem lugar para viviermos mais dignamente. Isso não é lugar de ninguém viver, não, moça. Sem esgoto, cheio de bichos. Mas é único que temos…”. Jackson para de falar e olha fixamente para o chão, onde viu algo que lhe chamou bastante atenção. Se abaixa e pega uma fotografia queimada apenas nas bordas. “Estas são minhas filhas!” Os olhos começam a lacrimejar.

É pensando no futuro delas que Jackson busca forças para recomeçar. Acredita que somente pela educação elas conseguirão superar o meio de vida que tinham. Em um barraco com poucas condições higiênicas, o computador, assim como os livros, tinham posição de destaque. Para ele e a esposa, tudo o que puderem fazer para que as filhas melhorem de vida, será feito com investimento nos estudos.

Jackson não tem raiva do que aconteceu. Não sente revolta, mas acredita no papel do Estado. “Tanta gente em Brasília Teimosa foi ajudada pelo governo, espero que olhem para nós também. Mas enquanto isso, vou trabalhando, juntando o que puder. Minha fé me ajuda a ser forte. E eu tenho o mais importante: a minha família”. Dois dias depois do incêndio, Jackson já retornara ao trabalho que havia conseguido há três meses: ironicamente, a construção de um edifício em Boa Viagem.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.